fev
2012
Toda a plateia chora: Os Inquietos
Existem alguns filmes que você já sabe: não vai dar certo esperar sair animadíssimo do cinema direto pra balada, direto pra qualquer festividade que seja. Quando vi o trailler de “Os Inquietos”, percebi que essa seria uma película difícil de digerir. Ainda assim, me atrevi a assisti-la numa sexta a noite. Acontece que com ”Restless”, como é o título original (e como quase sempre, o título original faz mais sentido que o traduzido), é possível ter dois olhares. O primeiro é o olhar emocional, aquele olhar de quando você ainda está chorando na sala de cinema. O outro é o olhar de alguns dias depois, de quando você já deixou o racional fluir normalmente. Prefiro escrever no momento da opção dois, para evitar noções precipitadas. Mesmo assim, contarei um pouco dos dois aqui.
O primeiro: saída taciturna do cinema
A história, se você avaliar, não tem muito de novo. Nem a narrativa. Traz um pouco de Annabel (Mia Wasikowska, de Alice no País das Maravilhas) e Enoch (o estreante Henry Hopper, filho do falecido ator Dennis Hopper). Ele, perdeu os pais num acidente e, desde então, conta com a companhia de um amigo imaginário que foi Kamikaze e com um fascínio imensurável pela morte. Por isso, frequenta funerais de desconhecidos. Em um deles, conhece a moça e, mais tarde, descobre que ela morrerá em pouco tempo. Só que Annabel tem uma visão diferente de tudo: naturalista, ela aprecia cada pequena coisa da vida.
Restless, como eu disse antes, é um título que faz mais sentido, em especial porque “rest”, em inglês, é um termo que se aproxima muito da morte. O título original, então, apresenta as atitudes de duas pessoas que estão sempre rodeadas pela morte mas que riem dela, brincam e se esquivam da imagem de sofrimento que ela representa. O cuidado de Gus Vant Sant com uma visão delicada do que significa morrer aparece na trilha sonora, na fotografia (de dias sempre amenos, ora chuvosos, ora de sol fraco), nos sons da natureza. Todo mundo entra no clima de “romance adolescente”, cheio de amor e inocência (pelo menos no filme). A temática, mesmo que clichê, acaba sendo trabalhada de uma maneira bem criativa, especialmente pela presença do fantasma Ryo (o ator Hiroshi Takahashi). O final deixa todo mundo calado, enquanto se ouve o fungar de narizes – por mais óbvia que seja a morte, por mais delicado que seja o filme e por mais felizes que sejam os momentos dos dois, a junção da tristeza silenciosa e da trilha sonora que indica que ali há uma pausa para reflexão não nos deixa imunes de consumir um pouco daquele misto de sentimentos também.
O segundo: uma avaliação externa
Tá certo, é um romance adolescente, com uma garota que está morrendo. Tem drama, tem tristeza. Mas o recorte não foi aquela coisa toda, porque lembra “Minha Vida sem Mim” (por causa da trilha sonora e da fotografia), lembra todos os filmes “cult” sobre a morte dos quais se tem notícia. Até aquele com a Winona Ryder e o Richard Gere, que não é cult e não é lá essas coisas, tem um quê de “menina delicada, linda e sensível”… que morre. A trilha sonora também foi pensada para ser consumida pela leva de adolescentes indies que adorarão assistir um filme indie ouvindo Nico e refletindo sobre a própria existência na aula de matemática. Acho que faz parte de todo o processo folk que o mundo está passando – todo mundo vintage com o instangram e fazendo as vezes de Bob Dylan.
Flashes
Abordar uma história de amor não é fácil. Ainda mais se envolve um paciente terminal de qualquer coisa. Então convenhamos: Gus Vant Sant fez isso muito bem. No final das contas, tratou da dor e da morte como um processo irremediável e, por isso, pouco digno de nosso sofrimento. Pelo contrário: Annabel e Enoch fizeram tudo o que queriam fazer, enquanto a morte não chegava para ela. Para nós, do outro lado da tela, isso também pode servir de lição. Ao som de Nico, até.