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Muito café e nanquim. Não necessariamente nessa ordem.

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Posts de Verão: HQs para ler nas férias

Ultimamente eu tenho dado sorte com livros. Bem, não com todos, partindo do princípio que Morte Súbita, o livro novo da J.K Rowling, que estou quase na metade e até agora não teve nada a dizer, é bem mais ou menos. Livros para ler nas férias são aqueles que vão te envolver de um jeito que você só para quando percebe que são duas da manhã e tem que dormir. Ou quando nota que aquela já é a última página, acabou, fim. Como adoro boas hqs, prefiro sugeri-las a trazer os livros mais lidos do momento (e não, eu não vou sugerir 50 Tons de Cinza. Argh), acho mais divertido.

Então, aqui vão algumas dicas de hqs lights, não lights, baratos, medianos etc, que podem alegrar o janeiro paradão.

 

Guadalupe1 – Guadalupe – Angélica Freitas e Odyr

Esse é um livro para você ler duas vezes, por dois motivos. O primeiro é que é rápido, divertido e tem uma história muito inteligente e interessante, veja só: Guadalupe, quando criança, foi criada pelo tio, a travesti Minerva (diva na boate Divina Perla). Para garantir o sustento da sobrinha, Minerva abre um sebo, e pretende deixá-lo para Guadalupe quando ela estiver mais velha. Às vésperas de Guadalupe completar 30 anos, sua avó Elvira morre em um acidente estranho — chocando sua scooter contra uma banca de tacos. Como Elvira havia pedido um enterro com banda de música em Oaxaca, sua cidade natal, Guadalupe e Minerva usam o furgão da livraria como carro fúnebre para conduzi-la até lá. O negócio é que a viagem reúne desde ladrão de almas até cogumelos que transformam quem os comer em um super-herói. Coisa bem psicodélica.

A segunda razão para ler Guadalupe por duas vezes é que, como a história passa muito rápido e tudo acontece muito umacoisaemcimadaoutra, é preciso ler duas vezes para entender. Fiquei sentindo falta de um desenvolvimento das coisas mais detalhado, e não “elechutaabolaparaojogadorxquevailançarparaojogadoryeégooolll”, tipo narração de futebol, que não dá pra entender porque tudo foi dito de uma vez só. Mas ainda assim vale a pena.

250px-Asterios-polyp-bookcover2 – Asterios Polyp -David Mazzucchelli

Meu voto vai para Asterios porque o livro, além de extremamente bem feito, com cores espetaculares, muito bem desenhado e visualmente sensacional, tem uma história muito boa. Pra você ver que eu não estou mentindo, olha o que a Companhia das Letras diz sobre Asterios: Asterios Polyp é ao mesmo tempo um estudo sobre as possibilidades narrativas dos quadrinhos, um livro de design, estética, filosofia e, por que não, humor. Tudo isso sem sacrificar a trama, tão envolvente quanto os desenhos do autor.

Muito chique. Mas sim,  Asterios é um arquiteto de cinquenta anos, arrogante e mulherengo, cujo que nunca pôs nenhum de seus famosos trabalhos teóricos em prática. Depois de um incêndio que destrói quase todos seus bens, ele passa a questionar a própria vida, e tenta descobrir porque deixou seu grande amor ir embora. O arquiteto parte, sem casa e com poucos pertences, numa viagem até onde o dinheiro der, e busca entender a si mesmo e, quem sabe, reencontrar o amor, enquanto toma uns carões das pessoas que encontra pelo caminho, hehe. O livro é demais, recomendo sem ressalvas.

3 – Aya de Yopougon - Marguerite Abouet e Clément Oubrerie

foto1Eu já escrevi sobre Aya no Geléia News, então vou postar um trecho do que escrevi lá, para você passar lá e ler. Ah! E já saiu o volume dois. Leia logo, se quiser emprestado eu empresto, mas tem que devolver logo, porque eu fico com saudade. Sou possessiva. ha

“Diga qual a primeira coisa que você pensa quando ouve: “um quadrinho sobre a vida em Youpougon, Costa do Marfim”? Se você pensou em histórias sobre pobreza, doenças ou alguma coisa meio sofrida envolvendo a Cruz Vermelha, errou totalmente. Aya de Youpougon conta a história de um grupo de jovens e seus dramas pessoais – coisa do tipo gravidez, relacionamentos, estudos, além de tudo o que um grupo de jovens apronta…só por ser jovem. A HQ trata um pouco da infância da autora, Marguerite Abouet, e mistura essa realidade com a das meninas e mulheres da Costa.

Aya, Bintou e Adjoua vivem onde chamam de “Yop City”. Aya prefere gastar suas horas estudando para a escola de medicina, mas as amigas adoram festa, e por isso se envolvem em muita bagunça, em especial porque rotineiramente quebram alguns dos costumes das famílias, como a proibição do sexo antes do casamento. O livro ainda está no primeiro volume no Brasil, portanto, é possível que você fique o tempo todo com a sensação de estar “assistindo” fim de temporada de série de TV: você já sabe que vai acabar com a deixa pro próximo”.

Outras dicas que você não deve deixar de ler nas férias:

- Ghost World, de Daniel Clowes. E se quiser, ainda pode assistir o filme;

- Cicatrizes, de David Small. Se quiser saber mais, leia aqui.

- Persepolis, de Marjani Satrapi. Que tem, e todo mundo conhece, um filme também.

Até a próxima, cambadis!

“Eu não vou ser nada quando crescer”

Não, eu não estou sendo dramática. É só a mais nova doideira do conglomerado (hahahaha) colorlilas.com. Que tal se um livro pudesse ter a configuração de um blog? Se cada capítulo fosse uma categoria, e cada post fosse encaminhando pro fim do capítulo? É disso que se trata “Eu não vou ser…”. Um “livro-web”. Ilustrado, claro, tudo aqui tem que ser ilustrado, exigência da chefia (tô megalomaníaca hoje).

Acesse a apresentação, porque ainda essa semana rola o começo do primeiro capítulo: http://nada.colorlilas.com/comeco/

A ideia é que, ao final do livro, tudo vire um pdf e, quem sabe, uma impressãozinha pra galere.

Não deixe de ler viu? Se quiser saber mais, vá lá: http://nada.colorlilas.com/sobre/

Dica de leitura: Wilson

Ontem devorei aqui o novo quadrinho do Daniel Clowes (autor de Ghost World). Se o mais famoso (pelo menos no Brasil) quadrinho do Clowes ganhou até filme (em 2001) e retratava a passagem de duas adolescentes para a vida adulta, Wilson (lançado no Brasil pela Companhia das Letras) trata da solidão e de outros entraves de quem está envelhecendo e se dá conta de que poderia ter feito mais, ter sido mais. Basicamente o drama de toda a raça humana, hehehehe.

A história (pelo menos para mim), é ainda mais legal que GW. Começou a partir de quadrinhos que Clowes escrevia para tentar relaxar, durante o período que o pai estava hospitalizado. Wilson é um homem de meia-idade que tenta recuperar relações com aqueles que foi abandonando ao longo da vida, porque depois da morte do pai é tomado por um insuportável medo de morrer sozinho. O problema é que ele é anti-social e tem dificuldades em controlar a sinceridade (o que torna tudo extremamente divertido). Ao mesmo tempo que tira sarro com a cara das pessoas ao redor, Wilson reflete sobre o que fez e o que faz da vida. É claro que são muitas as vezes em que é possível uma identificação entre você e o personagem. Ao mesmo tempo que, em alguns momentos, a gente sente raiva de Wilson, se apaixona por ele e por sua verborragia.

A HQ não tem uma narrativa comum. É formada por pequenas histórias – bem ao estilo de Clowes – que juntas contam um pouco da vida de Wilson sem que, para isso, seja necessário entrar em detalhes. É como se cada página fosse um episódio de meia hora do show de Wilson; e o passar das páginas fosse um hiato temporal. Outra característica muito legal da hq é a variação de traços e do esquema de colorização, a depender da história.

Quem está afim de uma HQ impossível de se parar de ler antes do final (porque hoje tem uns trecos mega conceituais que podem até ser bons, mas são um parto pra terminar de ler) ou quer referências para colorização e para estudo de traço pode contar com Wilson. E quem, como eu, foi fisgado pela primeira página da HQ, sabe do que eu estou falando: estão faltando mais quadrinistas como o Daniel Clowes – menos conceituais, mais críticos e bem humorados…mesmo que seja para contar uma história recheada de solidão.

 

Página 1 de Wilson (em inglês):

WILSON

 

Autor: Daniel Clowes. Tradução: Érico Assis
Editora: Companhia das Letras (80 págs., R$ 39)

 

Eu li e comento: E os hipopótamos foram cozidos em seus tanques

 

Alôu alôu, você que está buscando uma leitura light, curta e, ainda assim, cheia do glamour de ler Jack Kerouac. Pronto, está no caminho certo. E os hipopótamos foram cozidos em seus tanques baseia-se em um fato real, um crime passional que ocorreu em 1944. Burroughs e Kerouac assumem os papéis do barman Will Deninson e do marinheiro desempregado Mike Ryko, respectivamente. Os dois personagens narram, cada um com o seu olhar, o trágico episódio do assassinato de David Kammerer por Lucien Carr, no livro, com o pseudônimo de Phillip. O adolescente, na época com 18 anos, queria juntar-se à Marinha para viajar pelo mundo, mas contava com a constante participação de David em todos os acontecimentos de sua vida. Depois de Lucien ter se dado bem na vida – tornou-se “o cara sóbrio” do beat e trabalhou em um jornal dos EUA por mais de 40 anos – David foi retratado como um stalker pelos jornalistas. No livro, David é um homossexual de 40 e poucos anos que sofria de amor platônico por Phillip (Lucien), era amigo de Deninson e passava tardes tentando descobrir como conquistar o coração do amado. Phillip era completamente inconsequente e, por isso mesmo (e por seu impulso para tentar evitar que o “stalker” se tornasse marinheiro e o seguisse por todos os mares), acabou enfiando um canivete em David, em uma briga no Riverside Park.

Mas isso não é o principal da história, nem se preocupe. O mais interessante é perceber que a narrativa de “E os hipopótamos” não tem nada a ver com a literatura cabeção do

Kerouac e Lucien Carr

‘beat generation’, até porque Kerouak escreveu esse livro com 23 anos e, ao vê-lo recusado por uma editora, abandonou a possibilidade de publicá-lo. Inclusive, o próprio Lucien, ao ver a associação da obra com o fato que o levou para a cadeia por dois anos, pediu para os autores que só publicassem o livro depois de sua morte. E assim aconteceu. Lucien morreu em 2005, aos 79 anos. Em 2009, finalmente pudemos conhecer “E os hipopótamos…”, escrito em 1945.

Acho o livro ideal para quem escreve, porque prova o quanto uma linguagem pode amadurecer e o quanto um bom trabalho nunca é datado. Kerouac e Burroughs, em um texto fluido e muito bem escrito (até mesmo para iniciantes que os dois eram, numa época pré “On the road”), trazem uma obra divertida e ideal para entender o começo da geração beat e a própria juventude beat. Recomendo!