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Pode parecer um título clichê, mas, no caso, trata-se das movimentações independentes de arte. Ultimamente, tenho visto (e muitas vezes, de dentro) coletivos liderados por uma pessoa só, que é quem aparece, quem decide, quem dá as entrevistas e, muitas vezes, quem ganha com os eventos.
Isso, caros, não deveria ser um coletivo. Não sei que tipo de conceito os artistas de minha geração tem de coletivo, mas certamente não é um grupo onde um manda e os outros obedecem. E o pior é que os outros integrantes dos coletivos nem mesmo percebem que estão integrando, na verdade, uma pequena empresa como qualquer outra, com hierarquia, cargos maiores e menores, maiores benefícios pra uns, menores pra outros.
Outro dia eu estava conversando com um artista que estava pensando em criar seu próprio evento, mas precisava de contatos e, por isso, ia acabar apelando para um produtor conhecido. O problema é que esses produtores conhecidos, chefes dos coletivos (onde só eles atualizam o site do coletivo ou decidem quem entra ou quem sai, por exemplo), são os únicos a realmente viver da arte. Em especial, porque o que fazem é ser donos de uma empresa, com funcionários sem direitos e, muitas vezes, sem nenhum ganho real.
Quanto a mim, sei que não pretendo integrar nenhum coletivo, e não sei se pretenderei novamente. Gostaria muito de participar de feiras, eventos onde as pessoas montam suas exibições e vendem seus quadros e, como há uns anos atrás, aqui em Salvador, de um modo integrado, mas independentes. Cada marca, cada artista por si, mas montando um evento conjunto. Acho que corremos menos riscos desse modo, pelo menos nos dias de hoje, quando temos que lidar com artistas centralizadores disfarçados de democratas. Todo mundo, claro, desejando ” viver de arte”; e o resto dos artistas que se exploda.
Eu sempre fui do tipo de criatura que buscava otimismo em tudo, pensava sempre o melhor de todo mundo.
“Pô, ele não deve ter feito isso”. “Ah, eu tenho certeza que ele vai melhorar”. “Que nada, a cidade não é tão ruim assim”.
Eu continuo assim, mas acho que impus um limite à minha ingenuidade. De uns tempos pra cá, inclusive, comecei a achar que o país está ficando meio doido, e que todos os xiitas que viviam reclamando escondidos sobre “os pobres que estão viajando pra Europa” (ou escreviam em parcas colunas na Folha de São Paulo, tipo a Danuza) de repente levantaram de seus confortáveis acentos e começaram a gritar pela janela, para os transeuntes.
Rachel Sheheurirueirurazade (ou sei lá como se escreve o nome dela), Marco Feliciano, Danuza Leão e outras figuras assim me deixaram até com saudade de quando o único cretino de quem a gente tinha raiva era o Diogo Mainardi. Me digam: quando foi que a vida ficou tão chata? Quando foi que a tevê aberta começou a dar espaço pra uma imbecil como a Sheherazade? Ou que o Tadeu Schimidt, com aquela cara de pastel que só o Fantástico sabe produzir, decidiu dar sermão porque uns torcedores revoltados tacaram as Caxixi-rolas em jogadores (em jogadores mesmo?).
E a chatice não vem de um lado só. Eu era assinante da Carta Capital até pouco tempo, e desisti da revista quando recebi uma edição cuja CAPA era uma matéria intitulada “O vazio da cultura”. Em resumo, a matéria presunçosa dizia que as pessoas não ouviam mais música de qualidade ou acompanhavam a “arte de qualidade”. Aham. E eles nem mesmo postaram críticas à matéria na sessão carta ao leitor da semana seguinte, ficaram lá, um monte de leitores almofadinha babando ovos de Mino Carta. É só mais uma Veja, só que do centro (porque esquerda mesmo aquilo ali não é).
Eu nem vou comentar da “cura gay” de Feliciano, porque aquilo é tão absurdo que não merece nem Ibope. A minha única pergunta pra esse (e outros) caso é: gente, qual é a dessas pessoas? Por que diabos se incomodam tanto com gay? Que coisa chata, desnecessária, coisa de gente que não tem nada pra fazer, que tem um monte de miolos a menos. Aff
Pra fechar o índice negativo de otimismo que reduziu bastante a minha ingenuidade, eu conto a greve na Caros Amigos. Porra, aquela revista era um modelo de bons textos, de boas ideias pra mim. Quando descobri que as pessoas eram mal pagas, exploradas, e que o diretor geral da revista ainda chamou a greve de “Traição de confiança” e demitiu todo mundo que estava nela foi a gota d’água que faltava para que eu revisse essa tal ingenuidade que me condena. As relações humanas estão cada vez mais complicadas; em geral, porque as pessoas querem ter mais, ganhar mais, ir mais longe.
Esquecendo que uma hora o longe se torna lugar nenhum.
Acordar de manhã e não olhar os posts muitas vezes inúteis dos 100 zilhões de coleguinhas, com os quais você não tem nenhuma intimidade, antes mesmo das sete.
Não olhar o email no celular enquanto toma café.
Não responder email de trabalho enquanto toma café.
Não postar foto de seu café no instangram.
Uma vida sem o computador, a não ser quando se está no local dedicado ao computador – um escritório, uma sala de estudos, nada que você possa levar com você. Uma vida de abrir o jornal, enviar carta, escrever coisas relevantes, com mais de duas linhas. De ausência de trabalho no fim de semana. Da noite livre para ir ao cinema.
Algumas horas dá vontade de vender o celular. Morar num apartamento minúsculo, com o mínimo de móveis, o mínimo de objetos.
Sem perfil no facebook. Sem perfil no twitter. Sem tumblr. Sem aparecer o tempo todo, atender telefone o tempo todo, sem estar presente em tudo o tempo todo. É possível existir sem existir na web, ou estar com o smartphone desligado? No último fim de semana estive distante do computador e, mesmo usando espaçadamente o celular, notei que sem acessar freneticamente as redes sociais e meus emails descansei mais do que se tivesse passado 15 dias parada em casa. Eu estava perto do mar e longe da web, e isso fez muito bem pra minha mente, porque tudo indica que ela pôde, finalmente, fechar os olhos e dar uma cochilada.
Como filtrar o vômito diário de informação despejado em nossas caras como se a melhor opção fosse sempre estar conectado 24 horas? Não estar conectado é uma opção?
O que eu sei é que todos nós estamos com os olhos abertos demais, e até agora ainda me pergunto como é que conseguimos dormir com o barulhinho das mensagens que não param de chegar no celular.
Permitam-me escrever no mais absoluto baianês.
Parabéns, Salvador, minha porra.
Espero que, mais velha, você ainda aceite esses “filadaputa” que adoram falar mal de você, como se fosse você, sozinha, a responsável por toda a cagada que já fizeram e por todos os problemas que hoje rolam com a sua figura. Você é uma criatura por quem tenho amor roxo, daqueles que fazem a gente se perder, não conseguir viver sem.
Eu não vivo sem você, onde quer que eu esteja.
Sim, você me queima toda no ponto do busú.
Seu transporte público tá ruim pra porra.
Mas hoje é dia de te dar parabéns. E te pedir que seja, de novo, tolerante com esses coisinhos que mijam na rua, que jogam lixo pela janela do ônibus e esperam que as coisas se limpem sozinhas, que a chuva venha e esse lixo não entupa o bueiro.
Que você também seja tolerante com esses intelectuais cu-doce que te chamam de “urinópolis”, “terra do axé” e da falta de oportunidade. Se não houvesse oportunidade, todo mundo aqui morria de fome. E tomo mundo come. Tá todo mundo gordo, graças a Djá.
Que você seja paciente, agora que está mais velha. O pessoal ainda vai aprender a dirigir sem matar os coleguinhas, e a parar de querer furar fila. Mas eu fico muito feliz que a senhorita tenha criado um monte de filho que nunca perde tempo virando a cara pra todo mundo. Um monte de “véi” que não tá nem aí em andar de havaiana com shortinho em dia de semana, porque, na verdade, ninguém quer só estar na moda, quer mesmo é driblar o calor. Aqui, ao contrário do que acontece em outros lugares (a srta chegou a ver aquela pesquisa do sociólogo – ou psicólogo, vai saber – que disse que passou um tempo da porra trabalhando de gari e ninguém falava com ele?) um gari, garçom, catador de latinha…ninguém fica sem ouvir um bom dia. Ou um “vá tomar no cu”.
Parabéns por ser amalucada, por nos dar tanto motivo pra se irritar, pra rir, pra reclamar. Por nos dar o sorvete da Ribeira, o Cascadura, o Vivendo do Ócio, o Suinga, a Avenida Contorno, o acarajé de Cida, o Dois de Julho, o Santo Antônio, o Teatro Vila Velha. Obrigada por encher a gente de amigos doidos, facilmente reconhecíveis em qualquer lugar do país pela cara de pau e habilidade de falar com todo mundo em ponto de ônibus.
Obrigada por torrar o lado do meu corpo que fica virado pra janela do busú. Me sinto melhor, meio torrada, meio amarela.
Obrigada por me surpreender, pro bem e pro mal, por me chocar, pro bem e pro mal, mas sempre me fazer assim, mais afim de andar de sandália, de ir pro centro da cidade e de sair paletando até a rua chile. Ou sair do shopping Barra e subir aquela ladeira sacanagi que dá na Graça só pra tomar um suco no Solar, lá do Rodin.
Os chatos que me desculpem, mas a senhorita (senhora, essa rodada), Salvador, é fundamental.
Me diga: você não está se vendo pressionado (pressionada, na maioria das vezes) a parecer com um cabide para entrar nas roupas que fazem hoje em dia não?
Essa semana eu estava conversando com uma amiga e ela me disse que um famoso estilista baiano (sem precisar citar o nome dele) simplesmente NÃO FAZ roupas acima do tamanho 36. A justificativa dele é que as mulheres precisam ser magras.
Eu realmente tive vontade de cortar a cabeça deste senhor em cinco diferentes pedaços, apimentar e temperar bem, fazer um churrascão e dar pras mulheres carnudas (ha) como eu comerem. Qual é a bosta do problema em ter banha? Como vi uma vez, num filme, “eu não tenho interesse em me transformar numa pessoa com obesidade mórbida e 90 tipos diferentes de problemas de saúde”, mas qual o problema em não usar 38 ou 40? Eu gosto de comer, eu tenho pneus. Meu braço é gordo. Eu estou feliz assim, obrigada.
Só queria pedir que houvesse mais opções de roupa que não fosse para as mulheres-cabide. Porque, vem comeego, quantas mulheres cabide você conhece? Acertou quem disse que eu não conheço nenhuma. Ou melhor, só uma. E é muito irritante a obrigação que todo mundo se auto-impôs ultimamente para ser “saudável” (mais conhecido como ser extremamente magro). Eu sou saudável, com banha, com pneu, com celulite. Isso não faz de mim alguém doente. Faz de mim alguém com maior liberdade alimentícia.
Por que a gente precisa se sentir culpado por comer uma torta de limão no meio da tarde com aquele expresso gigante? Eu fico pensando em grifes como a desse rapaz, que não fazem roupas acima do número 36, e me pergunto o que é que ele come, e o que é que ele pensa que é comer bem. E não é só ele que diminui o tamanho das roupas pra tentar diminuir as mulheres: a Farm, por exemplo, só faz roupas pequenas. Como eu sei? Um dia entrei lá para experimentar umas saias e nenhuma, NENHUMA coube sem me asfixiar. E eu não era a única: pelo menos três mulheres diferentes saíram da loja com auto-estima baixa, simplesmente porque nenhuma roupa 42 ou 44 (tamanho máximo que vi por lá) cabia em nenhuma das moças. O 44 deles deve ser o 40 das roupas normais. Isso se aplica a muitas lojas de jeans, a muitas lojas de vestidos (como a Opção)…enfim…tá todo mundo diminuindo as formas das roupas para que a mulher se sinta obrigada a se achar gorda e, por isso, passe a fazer dieta.
A ararinha das roupas Plus Size da C&A chega a dar vergonha. Um monte de blusa que estimula a auto estima, tipo “Sou bonita assim”, numa arara pequena e amontoada, como quem diz “Toma, aqui é seu espaço, gorda. Fique com essas blusas anti-suicídio e tchau”. Enquanto isso, um monte de roupas de couro tamanho P são a nova moda nas lojas de departamento (e nas insanidades de Donatella Versace). Todas para mulheres-cabide.
O estilistinha famosinho que se apresentou na SP Fashion Week e já acha que pode dizer qual peso que as mulheres devem ter precisa saber que NENHUM estilista pode fazer isso. E se fizer, que seja amarrado e obrigado a comer enormes tortas – de chocolate – do Viva Gula. Bem enormes, suculentas e calóricas, do jeito que essa merda de sociedade da moda enche o saco para a gente não fazer.